Na clínica, é bastante comum os pais chegarem preocupados com os filhos. “Ele está muito ansioso”, “ela não consegue lidar com frustração”, “ele não faz nada sozinho”, “ela está muito irritada”, “não sei mais como lidar”. Quando uma criança está sofrendo, é natural que os pais procurem ajuda. Afinal, ninguém quer assistir ao sofrimento de um filho sem saber o que fazer.
Mas, quem está cuidando dos pais durante o tratamento do filho (a)?
Quando uma criança começa uma psicoterapia ou passa por um psicodiagnóstico, toda a atenção costuma se voltar para ela. A família quer entender o comportamento, descobrir o que está acontecendo, saber como ajudar, receber orientações. E isso é importante!! Só que, muitas vezes, os pais também estão cansados, preocupados, inseguros, cheios de dúvidas e, em alguns casos, completamente perdidos diante daquilo que estão vivendo.
E é justamente aí que o acompanhamento dos adultos faça tanta diferença.
Não porque os pais sejam culpados pelo que o filho apresenta. Não é sobre procurar culpados. É sobre reconhecer que educar uma criança, especialmente quando existe alguma dificuldade emocional, comportamental ou de desenvolvimento, pode ser muito difícil. E ninguém precisa atravessar isso sozinho.
Tenho visto também procura por atendimento de crianças muito pequenas, algumas com apenas dois anos. E aqui precisamos ter cuidado para não transformar toda manifestação própria da infância em um problema. Uma criança de dois anos ainda está aprendendo a lidar com limites, frustrações, espera, separação, emoções, impulsos. Ela pode fazer birra, querer colo, dizer não para quase tudo, se irritar quando é contrariada. Isso faz parte do desenvolvimento. Ao mesmo tempo, existem situações em que a avaliação profissional é necessária e quanto antes uma dificuldade importante for percebida, melhor.
O que precisamos evitar é olhar somente para a criança.
Quando um filho chega para psicoterapia, é importante compreender também o ambiente em que ele está crescendo, a forma como a família se organiza, como os adultos lidam com conflitos, limites, frustrações, medos e mudanças. Não para apontar erros, mas para compreender o contexto.
Porque filhos aprendem muito pelo que observam.
Uma criança que está aprendendo a lidar com ansiedade também observa como os pais lidam com as próprias preocupações. Ao mesmo tempo, essa mesma criança precisa desenvolver autonomia, ter espaço para tentar, errar e fazer algumas coisas sozinha. Além de precisar aprender a tolerar frustrações precisa encontrar adultos que consigam sustentar um limite sem transformar todo choro em motivo para desistir dele.
E isso pode ser muito difícil para qualquer pai ou mãe.
Às vezes, a intenção é proteger, mas acaba existindo proteção demais. A intenção é ajudar, mas acaba fazendo pelo filho aquilo que ele poderia aprender a fazer sozinho. A intenção é evitar sofrimento, mas ninguém consegue crescer sem experimentar alguma frustração.
Por isso, eu acredito que quando uma criança começa um processo de psicoterapia, os pais também deveriam considerar procurar auxílio. Não necessariamente porque tenham algum transtorno ou porque “precisem de tratamento”, mas porque também estão atravessando uma situação que pode gerar medo, culpa, exaustão, dúvidas e muita insegurança.
Ter um espaço para falar sobre isso pode ajudar a entender melhor o próprio comportamento, separar preocupação de excesso de proteção, aprender a colocar limites sem culpa, lidar com as próprias emoções e, principalmente, encontrar maneiras mais saudáveis de acompanhar o filho. Afinal, ninguém recebe um manual quando tem um filho.
É muito difícil oferecer calma quando estamos desesperados. É difícil transmitir segurança quando estamos inseguros. É difícil ensinar autonomia quando temos medo de deixar o filho tentar.
E talvez seja por isso que o cuidado não deveria terminar na porta do consultório da criança.
A criança faz terapia, os pais recebem orientação, a família participa do processo. E os adultos também podem ter um espaço próprio para cuidar de si.
Muitas vezes, quando os pais se fortalecem, conseguem oferecer ao filho algo que nenhuma orientação isolada consegue substituir… Presença, segurança, limite e disponibilidade emocional.
A criança pode estar fazendo terapia.
Mas, quem está cuidando de quem cuida dela?
Contato: 18 99808-2411
Anne Caroline Viotto Romero
CRP: 06/172862