Coluna Carol Viotto: Entre o cansaço e o celular: quem está educando nossos filhos?

Psicóloga reflete sobre a terceirização da educação infantil para as telas, os riscos do uso excessivo e a importância da presença e supervisão real dos pais.

Pais cansados, sobrecarregados, tentando dar conta de tudo e no meio disso, os filhos. Aí vem aquela frase: “ah, eu dei o celular porque precisava fazer minhas coisas”. E eu entendo, de verdade. A rotina não é leve. Mas tem algo aí que precisa ser olhado com mais cuidado.

Sem perceber, a gente vai terceirizando o educar e o cuidar. O celular vira uma solução rápida: distrai, acalma, “resolve”. Só que educar não é só manter a criança ocupada. Educar é estar junto, é ensinar a lidar com o tédio (que é necessário), com a frustração, com o “não”. É sobre estar presente.



📱 Participe do Canal Acontece Assis no WhatsApp, e Receba em Primeira Mão Todas as Notícias. Clique Aqui!


E tem um ponto importante que não dá pra ignorar: tela não é neutra, principalmente na infância. Existem recomendações bem claras:

  • Até 2 anos: o ideal é não ter exposição a telas.
  • De 2 a 5 anos: no máximo 1 hora por dia, com supervisão.
  • De 6 a 10 anos: entre 1 e 2 horas por dia, com limites bem definidos. Ainda com supervisão.

E aqui entra uma confusão comum: o que é, de fato, supervisão?

Não é só estar na mesma casa. Não é a criança no celular enquanto o adulto está no próprio celular. Supervisão é saber o que a criança está assistindo, com quem ela está interagindo, é poder comentar, orientar, interromper quando necessário. É estar disponível de verdade.

Porque quando isso não acontece, a internet vira uma “terra de ninguém”. A criança fica exposta a conteúdos que não são adequados pra idade, a estímulos excessivos, a comparações, a riscos que muitas vezes ela nem tem maturidade pra entender. Sem falar nos efeitos do tempo prolongado: irritabilidade, dificuldade de concentração, problemas de sono, menos interesse por interações reais. O mundo virtual acaba se tornando a fuga do real.

Além disso, o uso excessivo de celular pode levar a um padrão de dependência, principalmente na infância. O cérebro da criança ainda está em desenvolvimento e não está preparado para lidar com tantos estímulos rápidos, recompensas imediatas e excesso de informação. Hoje, tudo é imediato… Pula-se anúncio, troca-se de vídeo em segundos, não é preciso esperar quase nada. A criança vai perdendo a capacidade de lidar com o tempo das coisas, com a espera, com a frustração. Isso impacta até nos níveis de ansiedade, que tendem a aumentar quando tudo precisa ser rápido o tempo todo. Com o tempo, atividades simples já não interessam mais, o silêncio incomoda e o “não” fica mais difícil de sustentar. Além disso, sem supervisão, a criança fica exposta a conteúdos inadequados, contatos desconhecidos e referências que ela ainda não consegue elaborar. Não é só sobre “passar o tempo”, mas a forma como essa criança aprende a sentir, pensar e se relacionar com o mundo.

E aí a gente volta para o começo… Não se trata de demonizar a tecnologia, nem de culpar os pais. Mas de responsabilidade. É mais fácil dar o celular e mais difícil sustentar o choro, o tédio, a demanda por atenção, colocar limite depois de um dia cansativo.

Mas é justamente nesse “difícil” que o desenvolvimento acontece! Talvez não seja sobre ter mais tempo, mas sobre fazer diferente com o tempo que se tem. Um pouco mais de presença, um pouco mais de intenção. Porque vínculo não se terceiriza.

E educar (gostando ou não) continua sendo papel de quem escolheu ser pai e mãe. Escola, rede de apoio, profissionais da saúde são de extrema importância, mas não podem ocupar o cargo principal.

Contato: 18 99808-2411
Anne Caroline Viotto Romero
CRP: 06/172862

Categorias:

Compartilhe esse post: